
Existem filmes que assistimos. Existem filmes que nos marcam.
Existem filmes que assistimos. Existem filmes que nos marcam. E existem aqueles que, de alguma maneira, passam a fazer parte da nossa própria história.
Akira, lançado originalmente em 1988, pertence a essa última categoria.
Quando o filme chegou ao mundo, eu tinha apenas 10 anos de idade. Era muito jovem para acompanhar seu lançamento e compreender a dimensão do que aquela animação representava. Mas, como muitos da minha geração, fui descobrindo aos poucos o universo dos animes, dos mangás e de tudo aquilo que fazia a cultura japonesa parecer tão fascinante e distante.
Akira estava entre essas descobertas.
1998: Uma década depois, do outro lado da tela
Dez anos após o lançamento da obra de Katsuhiro Otomo, a vida me proporcionou uma experiência que jamais esqueceria.
Em 1998, eu trabalhava na cabine de projeção do Cine Teatro Garoto. Para quem gosta de cinema, estar naquele ambiente já era algo especial. Havia uma magia em trabalhar com películas, projetores e toda a preparação necessária para que uma história ganhasse vida diante de uma plateia.
Mas imagine a minha reação ao saber que Akira seria reexibido!
Foi um verdadeiro delírio.
Eu já conhecia o filme e tinha consciência de que não se tratava de uma animação qualquer. Akira era diferente. Sua estética, sua narrativa, a cidade de Neo-Tóquio e aquela atmosfera (cyberpunk) tinham um impacto que permanecia mesmo depois dos créditos finais.
E, de repente, eu não estava apenas assistindo a uma obra que admirava. Eu estava trabalhando no lugar onde ela seria exibida.
A cabine de projeção, que normalmente representava o meu ambiente de trabalho, tornou-se também um ponto privilegiado para reencontrar uma paixão. Entre as responsabilidades da função, havia a oportunidade de reassistir àquele clássico na tela grande.
E que experiência!
Os poucos fãs de anime estavam lá
Naquela época, ser fã de anime ainda era uma experiência bastante diferente da que temos hoje.
Não havia a facilidade de encontrar informações na internet, acompanhar lançamentos simultâneos ou acessar catálogos imensos de animações japonesas. Os fãs precisavam se encontrar, trocar informações, compartilhar fitas, revistas e descobertas.
Por isso, a reexibição de Akira no Cine Teatro Garoto tinha um significado ainda maior.
Os poucos fãs de anime daquela época apareceram. E isso tornava a sessão especial. Não era apenas uma programação de cinema: era uma oportunidade de encontrar pessoas que compartilhavam uma paixão que ainda não tinha alcançado a popularidade de hoje.
Havia uma sensação de pertencimento. Uma espécie de certeza de que, mesmo sendo poucos, estávamos ali.
E eu estava no centro daquela experiência, trabalhando na projeção e podendo rever um dos filmes que ajudaram a moldar meu olhar sobre a animação japonesa.
O tempo passou, mas Akira permaneceu
Hoje, ao olhar para trás, percebo como aquela experiência de 1998 foi significativa.
Eu tinha 20 anos e estava trabalhando em um cinema. Dez anos antes, era uma criança que não tinha idade para acompanhar o lançamento original. Entre uma data e outra, muita coisa aconteceu: descobertas, amizades, eventos, projetos e toda uma trajetória ligada à cultura nerd e aos animes.
O CAVVES também faz parte dessa história.
Agora, próximo dos 40 anos do lançamento de Akira, é impossível não pensar na força que algumas obras possuem para atravessar gerações. O filme continua sendo lembrado, discutido e revisitado. Sua visão de futuro, sua animação e seus temas permanecem relevantes, mesmo depois de tantas transformações no mundo.
E existe algo particularmente bonito em poder reencontrar uma obra dessas em diferentes momentos da vida.
Em 1988, eu era uma criança que ainda não tinha vivido aquela experiência cinematográfica.
Em 1998, eu estava na cabine de projeção do Cine Teatro Garoto, cercado pela magia do cinema e pela presença dos poucos fãs que apareceram para rever o clássico.
Hoje, tantos anos depois, continuo olhando para Akira com o mesmo encantamento de quem descobriu algo extraordinário.
Uma história que continua sendo escrita
Talvez essa seja uma das maiores belezas de ser fã: perceber que determinadas obras não ficam presas ao ano em que foram lançadas. Elas acompanham a nossa vida.
Akira não é apenas um filme de 1988. Para mim, é também uma lembrança de 1998, uma experiência vivida no Cine Teatro Garoto e uma parte da trajetória que me trouxe até aqui.
Enquanto novas gerações descobrem Neo-Tóquio, Kaneda, Tetsuo e toda a complexidade da criação de Otomo, nós, que tivemos a oportunidade de acompanhar diferentes momentos dessa história, podemos celebrar algo ainda maior: a permanência de uma obra que continua despertando fascínio.
E, quando as luzes da sala se apagam, a tela se ilumina e os primeiros momentos de Akira começam a surgir, talvez a sensação seja a mesma de décadas atrás.
A de estar diante de algo que não envelheceu.
A de reencontrar um sonho.
A de perceber que, em algum lugar entre a infância, a cabine de projeção e o presente, Akira continua fazendo parte da nossa história.
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